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A Prefeitura de São Paulo está organizando uma reorganização da educação municipal. Com ela, o ensino nas escolas municipais vai ter mais qualidade. Mas antes das mudanças serem implantadas, queremos saber sua opinião. Colabore acessando www.maiseducacaosaopaulo.prefeitura.sp.gov.br

A partir de 2014, a Rede Municipal de Educação da cidade de São Paulo terá, no Ensino Fundamental, mais ênfase ao trabalho interdisciplinar por projetos que envolvam a intervenção na comunidade escolar. A mudança faz parte do Mais Educação São Paulo, programa que reorganiza o currículo e a administração da Rede.

Segundo nota técnica da Secretaria Municipal de Educação, não se trata apenas de um exercício de sistematização de ideias, mas sim “uma forma inovadora de romper com as estruturas curriculares compartimentadas em disciplinas”, que promove ainda a integração entre os estudantes, os educadores e o entorno da escola.

O documento traz ainda sugestões metodológicas para o desenvolvimento de projetos, passo a passo:

1- Procurar um problema na realidade: Todo projeto nasce de questões significativas. Nasce de questões corajosas, amplas, éticas, humanizadoras, questões de justiça, de criatividade, de democracia, de liberdade. São esperançosas e utópicas. Elas povoam o universo de preocupações de alunos e professores. São questões que tocam a todo o mundo e não só à cidade ou ao país.

2- Valorizar os saberes do aluno: É por aí que a escola entra na vida de significados dos alunos e do saber local. É a partir deles, o saber do aluno e o saber local, que se articulam os saberes universais com seus significados. O Projeto Político-Pedagógico da escola ganha história quando cada professor descobre, ao vivo, a rede de significados, os conhecimentos, as motivações dos alunos e da comunidade local.

3- Estudar problemas semelhantes: A terceira fase de um projeto pode se desmembrar na pergunta: quem já pensou nisso antes? O que já foi feito, qual a história do problema e que soluções foram dadas? Ocorre, então, a fase da pesquisa. Leituras, entrevistas, pesquisas em ambientes tecnológicos, visitas a museus, arquivos, locais de cultura, família, bairro, órgãos públicos. É aqui que se definem com os grupos as regras de funcionamento, como prazos, resultados esperados, responsabilidades, as categorias de avaliação. Com os alunos e a partir deles. Tudo feito no início do trabalho, mesmo que ajustes possam acontecer no decurso como forma de organização necessária.

4- Buscar soluções e parceiros: Aqui os recursos, as dificuldades, os prazos, os instrumentos são levantados, no sentido de viabilizar encaminhamentos. Alianças, pactos, cobranças, senso de tempo e realidade se levantam entre os pesquisadores – e alunos, a escola, os responsáveis e professores buscam as soluções. As redes sociais neste momento são ricos instrumentos de pesquisa e mobilização.

5- Sistematizar o trabalho: Sínteses, fichamentos, dados, históricos, análises bibliográficas, pesquisas de opinião, documentação fotográfica, filmagens, roteiros de teatro, materiais artísticos, articulam-se entre alunos e professores, com os grupos de trabalho para construírem a proposta de intervenção social: momento de apresentação de síntese primeira no caminho da proposta.

6- Apresentar e checar inconsistências: Neste momento já se pode ensaiar a primeira apresentação pública do projeto para a classe para ser submetido ao conjunto dos pesquisadores e projetistas. É momento de verificar inconsistências, melhorias e receber contribuições externas. É momento de avaliação para a aprendizagem.

7- Comunicar e celebrar os resultados: A arte final do trabalho – quase sempre em múltiplas mídias – então é feita para ser publicada. As publicações dos projetos supõem um momento de gala da escola. Sua apresentação pode ser feita nos ambientes amplos da escola que extrapolem a sala de aula, indo ao pátio, às quadras; indo a outros espaços do bairro, como o supermercado, o posto de saúde, a subprefeitura, a escola de samba, as igrejas entre outros. Há mesmo possibilidade de que os trabalhos de projetos sejam partilhados com outras escolas do bairro, da cidade ou de outro país. É comum. O clima de festa com que se encerram tais trabalhos são parte essencial dos resultados, clima quase sempre presente em trabalhos com significados para toda a escola.

Para mais informações sobre o trabalho com projetos interdisciplinares, confira a íntegra da nota técnica abaixo:

 

Nota Técnica nº7 – Programa Mais Educação São Paulo

Aprendizagem por Projetos no Ciclo Autoral

ELABORAÇÃO DE PROJETOS; INTERVENÇÃO SOCIAL.

O Ciclo Autoral, que se refere ao trabalho do 7º ao 9º ano, trabalha, de modo prioritário mas não exclusivo, a questão da autoria por meio da aprendizagem por projetos. É caracterizado pela integrada participação de alunos e professores na construção da aprendizagem e do ensino. São eles parceiros e atores privilegiados nesta autoria. A marca forte desta fase é o trabalho sistemático com a atividade em forma de projetos curriculares comprometidos com a intervenção social.

Não se trata apenas de elaborar com os alunos um exercício de sistematização de projetos, como uma mera técnica de aprender. A construção de um projeto, como atividade pedagógica, no interior da reorganização curricular proposta pelo Programa Mais Educação São Paulo, deve considerar determinados passos e conceitos para que haja unidade de propósitos, consistência nas ações, sentido comum nos esforços de cada um e resultados de aprendizagem e cidadania de todo o sistema escolar.


Elaboração de Projetos

As questões que a sociedade moderna coloca para a educação escolar cobram soluções articuladas e fundamentadas. As chamadas “grades” curriculares funcionam frequentemente como verdadeiras prisões da curiosidade, da inventividade, da participação e da vontade de aprender.

A Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira abre caminhos para inovações e ampliação do sentido de Currículo Nacional. A Lei estimula práticas inovadoras dos educadores, mais do que nunca preocupados com descolamento entre os currículos e a realidade dos alunos, os problemas do país, do mundo e da própria existência.

Muitas das atividades curriculares propostas pelas escolas têm sido desenvolvidas por meio de projetos como forma de enfrentar as questões postas à educação. Esta é uma forma inovadora de romper com as estruturas curriculares compartimentadas em disciplinas e de dar um formato mais ágil e participativo ao trabalho de professores e educadores. É criativo reunir competências e contribuições de pessoas e áreas diferentes do conhecimento disciplinar para olhar a realidade de vários pontos de vista.

Aprender fazendo, experimentando, é o modo mais natural, significativo e intuitivo de abrir-se ao conhecimento. Isso é mais do que uma estratégia motivacional de aprendizagem. É um modo de ver o ser humano que aprende. Ele aprende pela experimentação ativa do mundo e por sua interpretação crítica.

Os projetos têm sido a forma mais organizativa e viabilizadora de uma nova modalidade de ensino que busca sempre escapar dos enquadramentos meramente disciplinares. Criam possibilidades de ruptura por se colocarem como espaço experimental e crítico, no qual é possível unir a Matemática à Educação Física, a Arte à História, a Língua Portuguesa à formação e participação numa identidade cultural.

Trabalhar com projetos é uma forma de viabilizar curricularmente, a partir de cuidadoso planejamento conjunto, as atividades, as ações, a participação do aluno no seu processo de produzir fatos sociais, de trocar informações, de divulgar, enfim, de construir e compartilhar conhecimento.

As diferentes fases e atividades que compõem um projeto são planejadas pelos professores conjuntamente e permitem aos estudantes desenvolverem a consciência sobre o próprio processo de aprendizagem. E permitem ao professor desenvolver a melhoria de conhecimento da classe e dos modos de ensinar.

Os passos metodológicos para o desenvolvimento conceitual de um projeto podem ser:

1. O passo inicial está na problematização da realidade. Todo projeto nasce de questões significativas. Nasce de questões corajosas, amplas, éticas, humanizadoras, questões de justiça, de criatividade, de democracia, de liberdade. São esperançosas e utópicas. Elas povoam o universo de preocupações de alunos e professores. São questões que tocam a todo o mundo e não só à cidade ou ao país.

2. Busca coletiva do saber que o aluno já traz. É por aí que a escola entra na vida de significados dos alunos e do saber local. É a partir deles, o saber do aluno e o saber local, que se articulam os saberes universais com seus significados. O Projeto Político-Pedagógico da escola ganha história quando cada professor descobre, ao vivo, a rede de significados, os conhecimentos, as motivações dos alunos e da comunidade local.

3. A terceira fase de um projeto pode se desmembrar na pergunta: quem já pensou nisso antes? O que já foi feito, qual a história do problema e que soluções foram dadas? Agora entra-se na fase da pesquisa. Leituras, entrevistas, pesquisas em ambientes tecnológicos, visitas a museus, arquivos, locais de cultura, família, bairro, órgãos públicos. É aqui que se definem com os grupos as regras de funcionamento, como prazos, resultados esperados, responsabilidades, as categorias de avaliação. Com os alunos e a partir deles. Tudo feito no início do trabalho, mesmo que ajustes possam acontecer no decurso como forma de organização necessária.

4. Quais as soluções e quais os parceiros que podem ajudar? Aqui os recursos, as dificuldades, os prazos, os instrumentos são levantados, no sentido de viabilizar encaminhamentos. Alianças, pactos, cobranças, senso de tempo e realidade se levantam entre os pesquisadores – e alunos, a escola, os responsáveis e professores buscam as soluções. As redes sociais neste momento são ricos instrumentos de pesquisa e mobilização.

5. Sínteses, fichamentos, dados, históricos, análises bibliográficas, pesquisas de opinião, documentação fotográfica, filmagens, roteiros de teatro, materiais artísticos, articulam-se entre alunos e professores, com os grupos de trabalho para construírem a proposta de intervenção social: momento de apresentação de síntese primeira no caminho da proposta.

6. Neste momento já se pode ensaiar a primeira apresentação pública do projeto para a classe para ser submetido ao conjunto dos pesquisadores e projetistas. É momento de verificar inconsistências, melhorias e receber contribuições externas. É momento de avaliação para a aprendizagem.

7. A arte final do trabalho – quase sempre em múltiplas mídias – então é feita para ser publicada. As publicações dos projetos supõem um momento de gala da escola. Sua apresentação pode ser feita nos ambientes amplos da escola que extrapolem a sala de aula, indo ao pátio, às quadras; indo a outros espaços do bairro, como o supermercado, o posto de saúde, a subprefeitura, a escola de samba, as igrejas entre outros. Há mesmo possibilidade de que os trabalhos de projetos sejam partilhados com outras escolas do bairro, da cidade ou de outro país. É comum. O clima de festa com que se encerram tais trabalhos são parte essencial dos resultados, clima quase sempre presente em trabalhos com significados para toda a escola.

Neste contexto as tecnologias da informação e comunicação são ferramentas importantes pois facilitam o acesso a diversas fontes de informação (as rádios da escola, os jornais do bairro, revistas, blogs de opiniões, exposição de fotos, pesquisas em tabelas e gráficos, ilustrações, simulações). Fornecem ainda suporte para o registro e o compartilhamento dos processos e dos produtos desenvolvidos pelos professores e alunos, entre alunos de diferentes escolas e pela comunidade.

Projetos devem estar circunscritos a um tempo planejado, discutido com os alunos e não muito extenso, com clareza do princípio, do meio e fim, para que o aluno não tenha o sentimento de que o projeto não obteve êxito.
Intervenção Social

O destino dos projetos não é os arquivos das escolas, nem os fundos empoeirados das gavetas. Sua finalidade é tornar-se coisa pública, interpretação do mundo e possibilidade de participação nele.

Há necessidade de atribuir, ao saber por eles produzidos, perspectivas políticas, estéticas, éticas e afetivas. Além disso, os projetos devem estar marcados por rigor científico próprio de cada área do conhecimento que foi acionada para lhe dar consistência epistemológica.

Os problemas do mundo são econômicos, políticos, culturais e éticos. Mas seu tratamento transcende as políticas imediatas só sendo compreendidos por um tratamento humanista, filosófico e transcultural. A diversidade, o respeito às minorias, o tratamento da liberdade e da justiça são as bases do olhar curricular sobre os projetos de intervenção e de autoria coletiva.

O professor que planeja e ensina o aluno a trabalhar em conjunto é também aquele que trabalha com os demais professores na construção de projetos em parcerias com diferentes áreas e com diferentes agentes sociais. O isolamento das áreas do conhecimento não favorece o olhar crítico sobre o mundo para dele participar e transformá-lo.

A perspectiva é que a conclusão do Ciclo Autoral, de alunos e professores, se consolide em trabalho de apresentação de um projeto enquanto trabalho de autoria e intervenção social. Esse trabalho, denominado Trabalho Colaborativo de Autoria – T.C.A. – é tema da Nota Técnica número 6.

Leia também:

Devolutiva da consulta pública do Mais Educação São Paulo
Notas técnicas resultantes da consulta
Quadro-síntese com as principais alterações do documento inicial do Programa
Sistematização das colaborações por temas

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Discussão - 3 comentários
  1. ANTONIO DIAS NEME

    nov 08, 2013  at 14:23

    http://maiseducacaosaopaulo.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2013/08/logo.gif

    Secretaria divulga passo a passo para que professor trabalhe com projetos interdisciplinares

    A partir de 2014, a Rede Municipal de Educação da cidade de São Paulo terá, no Ensino Fundamental, mais ênfase ao trabalho interdisciplinar por projetos que envolvam a intervenção na comunidade escolar. A mudança faz parte do Mais Educação São Paulo, programa que reorganiza o currículo e a administração da Rede

    A vida escolar possibilita exercer diferentes papéis em grupos variados, facilitando a integração do educando no contexto maior. Nessa perspectiva, os jovens não podem ser tratados apenas como “cidadãos em processo de formação”. Eles já fazem parte do corpo social e, por isso, devem ser estimulados a exercitar sua condição de cidadania, desenvolvendo expectativas e projetos em relação ao conjunto da sociedade. É preciso que a Escola traga para dentro de seus espaços o mundo real do qual esses jovens fazem parte. Sendo assim, o presente projeto mais ênfase ao trabalho interdisciplinar que envolvam a intervenção na comunidade escolar justifica-se como forma de mobilizar a equipe escolar e a comunidade. Nesse contexto, a Escola promove atividades a serem realizadas dentro e fora da escola, visando a conscientização da equipe escolar e da comunidade sobre a importância das responsabilidades coletivas.
    Torna-se fundamental que a equipe escolar e demais pessoas envolvidas no processo, estejam aptos a julgar e analisar criticamente o seu desempenho e do grupo. Tendo como objetivo maior, a mudança de atitude e comportamento na vida prática e da comunidade.
    A meta principal é demonstrar as possibilidades de efetivar um processo democrático através da participação da comunidade escolar na gestão escolar. Defende-se a idéia de que, através de um processo democrático de gestão, a escola terá maiores condições de visualizar suas reais possibilidades para contribuir e elevar os níveis de desempenho dos alunos. Nesse sentido, deve ser incentivada a construção de um projeto pedagógico de forma a assegurar o envolvimento dos órgãos de decisão colegiada, principalmente a comunidade escolar, conselho de escola e APM.
    Atualmente, são inúmeros os fatores que influenciam o sucesso ou o fracasso dos alunos na escola. Dentre esses fatores, um pode ser considerado como central: a participação ou não da família na escola.

    PROFESSOR ANTÔNIO DIAS NEME

    Responder

  2. ANTONIO DIAS NEME

    nov 08, 2013  at 14:23

    http://maiseducacaosaopaulo.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2013/08/logo.gif
    Boas Práticas – Teatro mamulengo

    A arte educadora, Clarinda da Conceição Rocha de Souza, fala sobre o curso voltado para o teatro de bonecos mamulengo.

    O Mamulengo é uma das pouquíssimas formas de Teatro Popular que ainda consegue subsistir nesse país, onde a cultura é relegada ao mais inferior dos planos.

    Com muita ação, muita beleza e muita graça, o Mamulengo consegue educar e divertir desde a pequena criancinha até o mais idoso adulto, independente de cor, sexo ou classe social. Através dele conseguimos nos transportar para a fantasia mágica do teatro e ficamos ao mesmo tempo entre o sonho e a realidade, extasiados pela dinâmica e a simplicidade desse brinquedo do povo.

    Mamulengo é uma forma de arte popular da cultura nordestina. É um teatro de bonecos, conduzido com as mãos na linha dos fantoches, mas com uma estrutura própria, da qual faz parte: histórias, lendas, linguagem própria, personagens fixos, pancadarias, picardia, música, dança etc…
    É um brinquedo com seu jeito próprio de ser, inigualável na dinâmica, simplicidade e alegria.

    A origem da palavra MAMULENGO se perde na história e não é comprovada sua aparição por documento, mas sim, pelas próprias teorias populares. Uma das mais comuns é a teoria de que MAMULENGO seria uma corruptela da expressão popular “MÃO-MOLENGA” porque o mamulengueiro (a pessoa que conduz a brincadeira escondida atrás da pequena barraca), tem que ter uma grande habilidade manual para trabalhar ao mesmo tempo com dois personagens e manipular às vezes mais de 60 bonecos durante uma brincadeira que dura no mínimo de duas horas, até seis ou oito horas de representação.
    O Mestre (modo como é chamado o mamulengueiro e quase sempre o dono do brinquedo), tem que ser poeta, ator, dançador, improvisador, cantador, dinâmico, saudável etc… Pois para brincar com mais de 60 bonecos, em às vezes quase oito horas de representação, é preciso ser mais que artista, é preciso viver e incorporar cada personagem do brinquedo. É preciso ir no âmago da brincadeira e se transformar a cada momento.
    Um verdadeiro Mestre de Mamulengo é, além de tudo isso, o artesão, o homem que confecciona seus próprios bonecos entalhando-os do mulungu – madeira leve extraída de grandes árvores dos brejos de alguns estados nordestinos.

    O Mamulengo é descendente da Comédia Popular Italiana (Comédia Dell’Arte) e dela absorveu vários personagens e parte da estrutura de representar da velha comédia.
    Segundo a escassa bibliografia que é composta por três obras apenas (O Mundo Mágico do João Redondo de Altimar Pimentel; Fisionomia e espírito do Mamulengo de Hermílio Borba Filho; Mamulengo – Um Povo em forma de bonecos de Fernando Augusto Gonçalves dos Santos), o teatro de bonecos apareceu no Brasil duzentos anos após o descobrimento, portanto por volta de 1700. Dizemos que o teatro de marionetes chegou ao Brasil por esta época e não o mamulengo em si, porque o brinquedo, que hoje é profano, vem do teatro religioso, ou melhor, dos átrios da Igreja. Durante anos porém, foi tomando forma, corpo, estrutura própria, penetrando nas camadas populares, absorvendo seus costumes até transformar-se num brinquedo do povo.
    A ação dramática do mamulengo é feita através de pequenas peças ou passagens não escritas, acompanhadas e entremeadas de muita música, dança e improvisações feitas pelo apresentador que pode ser Simão, Prº Tiridá, Benedito, João Redondo, Casimiro Coco etc…

    A ação dramática do brinquedo é feita através de passagens e as passagens são motivos ou até pretextos para a atuação de determinados personagens. É uma brincadeira arbitrária e improvisada adaptando-se com rápida facilidade ao ambiente onde está sendo brincada. As passagens são totalmente independentes entre si sem qualquer preocupação lógica.

    Vejamos alguns exemplos:

    Passagens-Pretexto: Onde aparece um boneco, cumprimenta o publico, diz uns gracejos, canta alguma coisa e sai. Sua aparição é independente de qualquer explicação.
    Passagens- narrativas: feita com versos como os poetas repentistas. Um ou dois bonecos narram fatos, acontecimentos ou estórias imaginarias.
    Passagens de briga: geralmente são arbitrarias, onde os bonecos dão prova de verdadeira resistência artesanal, devido ao grande numero das pancadarias e violentas contorções que são típicas dessas passagens. As brigas e a violência dessas passagens não chegam porém, a chocar ou agredir o público, por se valerem do humor, do ridículo e do caricatural nas representações.
    Passagens de dança: servem como recurso para fazer ligação entre as outras passagens que compõem o brinquedo. São também totalmente arbitrárias e delas participam ativamente os tocadores e os bonecos dançarinos.
    Passagens-de-peças ou Tramas: São Comédias, dramas, farsas, autos religiosos, sátiras sociais etc., que seguindo a estrutura formal do espetáculo de teatro, podemos considera-las como pequenas peças. Essas pequenas passagens embora não sejam escritas, acontecem dentro do mamulengo, igualmente ao teatro de revista, onde se sucedem como esquetes com assuntos cômicos, sociais, morais, religiosos, etc., incorporando elementos que pertencem ao gênero dos musicais e ao gênero do Circo.

    É bom ressaltar, que atualmente, vários mestres, dos poucos que ainda existem, adaptaram seus brinquedos à velocidade da comunicação moderna, brincando estórias completas que duram cerca de uma hora, uma hora e meia, mais ou menos, dependendo do lugar e da platéia para a qual estejam se apresentando.
    Quem cria e brinca de mamulengo é sempre um artista popular. Um artista do povo para o próprio povo. É também um artista do riso, pois o riso, além de ser sua maior intenção, é, sem dúvida, sua maior recompensa como artista do mamulengo.

    Suas estórias são tiradas do cotidiano, apresentadas de maneira hilária, fantástica, engraçada e picante. Fazendo a platéia ir ao delírio do riso e penetrando na alma do espectador transformando-o nos próprios bonecos da representação.

    Do ponto de vista técnico a representação do mamulengo não é muito simples, pois além do Mestre, são necessários outros elementos que auxiliam bastante para que aconteça o espetáculo, a brincadeira, a função. Como é essa estrutura? Quem são esses elementos e quais são suas funções dentro do brinquedo?
    O Mamulengo é brincado dentro de um palco que é chamado de: Barraca, Tolda, Empanada e às vezes de Tenda. Geralmente são construídas de madeira e revestidas com tecidos populares. Às vezes encontramos barracas com desenhos e dizeres do povo que são usados meramente como enfeites, sem muita preocupação com o conteúdo, como encontramos também, mamulengueiros brincando apenas como uma corda esticada e um pano pendurado.
    Dentro da barraca brincam:

    O MESTRE
    é o responsável pelo brinquedo e é a figura mais importante.. Geralmente é o dono do brinquedo, criador dos bonecos e o do espetáculo, acumulando as funções de empresário, principal ator e manipulador.
    O CONTRA MESTRE
    é a segunda pessoa da brincadeira. Manipula alguns bonecos, cria mais de uma voz e dialoga com o Mestre sustentando o improviso. Em alguns casos é sobrepujado em importância pela figura do Mateus.
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    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/QUITERIA.jpg
    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/zededuda.jpg
    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/MANEPACARU.jpg
    OS FOLGAZÔES OU AJUDANDES
    sua função é a de manipular bonecos em cenas com muitos personagens, como brigas, e sobre tudo danças, quando fazem coro cantado junto com os estrumenteiros. Quase nunca falam
    Do lado de fora da barraca brincam:

    O MATEUS
    personagem muito importante para o mamulengo e que foi assimilado do Bumba-Meu-Boi. O Mateus é uma espécie de Corifeu da Tragédia Grega. Sua função é a de interlocutor entre o mundo figurado dos bonecos e o mundo real do público. Deve ser ágio, engraçado, versejador e ter muito senso e prática na arte do improviso.
    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/Mamulengo-2.jpg
    OS INSTRUMENTISTAS
    entre os mamulengueiros são chamados de “instrumenteiros”, “batuqueiros” ou “tocadores”. Os instrumentos mais usados são sanfona de oito baixos, triangulo, ganzá e zabumba. A música é um elemento de vital importância para o brinquedo do mamulengo. Na música e na dança repousa quase toda a estrutura dramática do brinquedo. A participação dos músicos nas cenas de danças, de brigas, nas cantorias etc., determinam muitas vezes o ritmo e o clima do espetáculo. De acordo com a qualidade dos instrumentistas o espetáculo cresce em participação. A música é executada ao vivo e muitas vezes criada de improviso em cima da cena que está sendo apresentada.
    O PÚBLICO ou PLATÉIA
    é sem duvida o elemento mais importante para qualquer tipo de atividade artística, pois é para o público que são criados, preparados e apresentados os espetáculos. No caso do Mamulengo, o público se constitui um elemento vivo, ativo e participante durante toda brincadeira. Sem a participação do público não pode haver brincadeira, e, se houver, nunca será completa.

    O Mamulengo nos transporta para um mundo onde o fantástico se torna cotidiano e o cotidiano se torna fantástico. Para tentar compreendê-lo temos que penetrar no seu universo, partindo do boneco como simples objeto plástico, como escultura, até o momento em que ele perde a natureza de simples pedaço de madeira esculpido, para transformar-se em ser vivo, dramático, animado, a quem o mamulengueiro empresta alma, e, conseqüentemente, vida.
    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/Padre-e-Professor-Furustreca.jpg

    É fantástico o processo de criação do mamulengo, desde a transformação de um simples pedaço de madeira no boneco como elemento plástico, até ele adquirir vida durante a brincadeira. Porque nisso tudo, entra a coisa mais bela que existe – o poder de criação que acompanha o ser humano desde sua existência na Terra.
    É uma pena que esse incrível teatro popular, como tantos outros brinquedos da nossa cultura, já estejam fadado ao desaparecimento e conseqüentemente à extinção.
    Vivemos num país onde não se preserva a cultura popular. Onde essa cultura está dia a dia deixando de ser “a brincadeira do Povo”, para transforma-se em folclore e mero elemento de especulação turística.
    http://www.valdeckdegaranhuns.art.br/imagens/burrinha-e–boi-pintadinho.jpg
    Sabemos que a evolução de um povo depende do quanto ele saiba preservar seus costumes, sua ciência, sua arte, sua cultura. A cultura evolui, adquire novos elementos, mais conserva sua essência, sua alma, que lhe dá marca registrada e resguarda-a das imitações, falsificações…

    Tanto o Mamulengo como outros folguedos do nosso povo, estão sofrendo muito com essa tentativa de massificação da cultura que está sendo implementada pelos meios de comunicação de massa.
    Em nome da “cultura” estão destruindo nossos brinquedos e abrindo espaço, por exemplo para a televisão, mau manipulada por elementos totalmente inescrupulosos que usam sua força para deseducar e para impor na população a rebeldia desenfreada, o consumismo, que conseqüentemente leva ao conformismo e ao obscurantismo, posto que aos ricos apresenta soluções, aos médios possíveis soluções e aos pobres apenas o desejo de realizações impossíveis dentro da nossa sociedade infeliz e católica.

    Nossos folguedos são como nossos índios, que se retirados das matas, adoecem, morrem, desaparecem. Nossos brinquedos são do povo, para serem brincados no meio do povo. São o lazer, a alegria e a vida desse povo. Para preserva-los e fortifica-los devemos deixa-los livres e contribuir para essa liberdade.
    O Mamulengo é um brinquedo do povo feito para o próprio povo. Onde “a matéria do homem junta-se à matéria do boneco para uma transfiguração. A alma do homem dá ao boneco também uma alma. E, nesta pureza realizam um ato poético.”*

    COLABORAÇÃO PROFESSOR ANTÔNIO DIAS NEME

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  3. Lidiane Oliveira

    nov 15, 2013  at 14:23

    Projetos interdisciplinares são meios que enriquecem o trabalho do educador de maneira que seja significativa para o educando. Através desses projetos o professor pode relacionar vários assuntos que colaborem para a aprendizagem dos alunos em cada disciplina que consta no currículo.

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